Política de C&T – uma questão estratégica

Paulo R. Foina[1]

O objetivo de qualquer governante é buscar o desenvolvimento do país e seus cidadãos. Isso significa oferecer oportunidades e condições para que ocorram os crescimentos pessoal, do cidadão, e econômico, de toda a sociedade. Em outras palavras deve propiciar condições para que aconteçam os desenvolvimentos intelectual, profissional, social e bem estar dos habitantes, além do desenvolvimento industrial e econômico das empresas, a recuperação do meio ambiente e a sustentabilidade das cidades. Em cada um desses planos de desenvolvimento vemos a necessidade de diretrizes explícitas para a C&T e para a educação.

Neste contexto, uma Política de C&T só tem sentido se subordinada a uma política maior de desenvolvimento social e econômico do país. Resumindo, precisamos de diretrizes sobre o tipo de industrialização que desejamos, as formas de criarmos pessoas autônomas e capacitadas, os planos de construção e manutenção da infraestrutura de mobilidade e transporte, o planejamento de longo prazo para as redes de energia e de dados de alta velocidade além de postura internacional que nos garantam relações amigáveis com os grandes centros de desenvolvimento industrial e cultural do mundo.

Todas essas políticas devem ser emanadas do Governo Federal e instanciadas para as características de cada unidade da federação e de cada cidade. Esse instanciamento deve respeitar a vocação e recursos de disponíveis em cada cidade minimizando assim os riscos, potencializando resultados e ajudando na construção de um país integrado e mais justo.

Trazendo essa discussão para o Distrito Federal, uma Política de C&T para o DF deve contemplar a definição das áreas de interesse (científico e econômico e político) de longo prazo, o incentivo à formação em ciências desde os ciclos básicos, o apoio a instalação de empresas alinhadas com as áreas de interesse e a criação um ambiente social onde a inovação seja o seu principal motor.

As primeiras perguntas a fazer são: Qual a economia que queremos para o DF? Qual a vocação econômica natural do DF? Quais os recursos existentes que temos para aproveitar?

Para a primeira resposta que devemos dar é se realmente o DF não tem vocação para indústrias pesadas e poluentes. Assumindo que isso seja verdade (afinal, parece ser consenso entre todos os interessados no tema), devemos então concluir que queremos aqui empresas que produzem produtos e serviços de alto valor agregado.  Intensivas de inteligência.

Para responder à segunda questão  eu gosto de manter uma perspectiva histórica, assim relembro que o DF nasceu para hospedar e suportar o centro do poder federal. Toda a sua organização urbana foi idealizada para essa missão. Com o passar dos anos e a ocupação dos espaços pela população, novas vocações assessórias apareceram, dentre elas citamos: música (rock e chorinho), artes cênicas (principalmente comédias), TIC (grandes datacenters estatais e governamentais),  pesquisa aplicada (notadamente em agropecuária), defesa (cibernética e eletrônica), confecção (moda íntima e feminina) e mobiliário.

A terceira questão exige a recuperação de dados sobre os recursos disponíveis na região. Temos muito Sol e muita chuva, mas em estações bem definidas. Temos um cerrado fértil que produz plantas com potencial para serem melhor exploradas. Temos um relevo relativamente plano. Temos alta densidade de mão de obra qualificada e, principalmente, a proximidade com o poder central.

O cruzamento das respostas às três questões colocadas nos indicará as áreas onde devemos fomentar a C&T do DF. Devemos ainda olhar para o futuro e identificar quais conhecimento e habilidades serão necessários nos próximos 10 ou 20 anos. Essas novos conhecimentos e habilidades deverão também compor a lista de áreas que deverão ser fomentadas agora para que tenhamos produtos, serviços e pessoas capacitadas quando forem necessárias.

Não podemos cair na armadilha de querermos desenvolver todas as áreas do conhecimento pelo simples fato de todas serem igualmente importante para a humanidade. Nunca teremos recursos suficientes para cobrir, de forma consistente e segura, todos os projetos. Devemos selecionar aqueles que podem efetivamente trazer melhorias para a nossa região e deixar que as outras áreas de conhecimento sejam fomentadas pelas unidades da federação que tenham mais interesse nelas, ou pela iniciativa privada.

Por fim, precisamos que todos os atores de C&T compreendam que os gastos em pesquisa e desenvolvimento feitos pelos governa, em particular pelo GDF, devem trazer benefícios concretos para a sociedade local, que efetivamente está bancando esses investimentos. Precisamos de indicadores que mostrem como a sociedade está se apropriando dos conhecimentos criados nas pesquisas e assim mostrar como os investimentos em C&T, quando bem gerenciados, pode alavancar transformações importantes para a sociedade.

[1] Professor e pesquisador em inovação e gestão de tecnologia. Coordenador de curso do UniCEUB, consultor do Instituto de Pesquisas Eldorado e Diretor do Instituto Illuminante de Inovação.

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