A educação mediada pela tecnologia

Paulo R. Foina[1]

O Brasil tem o desafio de educar uma grande quantidade de jovens, num território enorme e com diferenças culturais significativas. Tudo somado, torna a educação uma tarefa hercúlea e que exige estratégias audaciosas e inovadoras. As abordagens feitas até agora não deram certo e nossos jovens estão piorando frente aos seus colegas de outros países. Nossa sociedade tem características próprias, e peculiares, e copiar modelos de outros países, nem sempre funciona bem. Precisamos achar nosso próprio caminho, e rapidamente.

Esse desafio não é novo e outros setores já passaram por ele, como o setor bancário, onde o aumento exponencial da banquerização da economia, e a grande diversidade cultural, obrigaram os bancos a adotarem estratégias audaciosas, para a época: automação massiva. Algo parecido precisa ser feito na educação, pois só assim poderemos dar uma atenção mais individualizada, para um número cada vez maior de alunos e com um quadro de professores com as deficiências que já conhecemos. Cabe ressaltar que o sucesso da automação bancária não foi decorrente apenas da tecnologia, mas exigiu uma revisão completa dos processos bancários e capacitação dos profissionais, para aproveitarem as vantagens da automação. Sem essa revisão a automação não teria trazido os resultados que de fato trouxe.

Ao falarmos de automação no ensino não estamos dizendo que o professor pode ser substituído pelas máquinas. Não pode! Mas pode ter boa parte das suas atividades repetitivas, e de pouco conteúdo humano, complementadas pelos programas de computadores e conteúdos na Internet. As tarefas executadas pelo professor em sala de aula são, basicamente, apresentar novos conteúdos, resolver as dúvidas, treinar os alunos nesses novos conteúdos, avaliar o resultado do aprendizado, motivar os jovens para o estudo e ser, acima de tudo, uma referência de cidadania e profissionalismos para os jovens cidadãos.

As atividades de apresentação dos novos conteúdos (em diversas linguagens e formatos), os treinamentos repetitivo e exaustivo sobre esses conteúdos e a avaliação dos alunos podem ser feitos por sistemas computacionais e portais educacionais sem prejuízos para o processo de ensino-aprendizado. O que não se pode substituir é a atenção, a orientação, o incentivo, a motivação, o acolhimento, o exemplo de pessoa e de profissional que o professor exerce sobre seus alunos. Nisso, nós somos insubstituíveis.

Outra reflexão que precisa ser feita, urgentemente, é quanto os objetivos da educação para a sociedade moderna. Nosso mundo mudou desde a revolução industrial. E muito! Hoje, boa parte dos meios de produção podem ser adquiridos por qualquer pessoa, e permite que ela se torne empresário. Com a tecnologia cada vez mais acessível, com soluções de logística e distribuição simplificadas, e uma boa dose de criatividade qualquer pessoa pode criar um pequeno negócio e ser um empresário. As mais novas empresas de sucesso internacional nasceram assim.

Nosso currículo escolar, desde o fundamental até o superior, não prepara nossos jovens para serem empreendedores, mas sim para serem cientistas ou trabalhadores de empresas tradicionais. Não basta ter uma disciplina de empreendedorismo no currículo. É necessário desenvolver as (novas) habilidades e competências de ser empreendedor e empresário, principalmente no Brasil. Precisamos preparar desde cedo nossos jovens para descobrirem oportunidades de negócio, exercitaram o empreendedorismo, administrarem pequenos negócios e motivá-los a serem empresário, sem culpa e sem medo.

Não há nenhum risco, para os jovens, se eles se envolverem em pequenos negócios logo cedo. Oferecer bens e serviços para a sua vizinhança, produzir e vender artesanato e doces, prestar serviços de cuidador de bichos de estimação, atuar como acompanhante de idosos e de pessoas com restrições de mobilidade, dar aulas particulares, ensinar a tocar instrumentos musicais etc. são pequenos empreendimentos juvenis que devem ser incentivados.  São oportunidades para um jovem desenvolver, e exercitar, as habilidades empreendedoras, e de gestão de pequenos negócios. Nossas escolas precisam incluí-las entre as suas atividades e considerá-las nos seus processos avaliativos.

Temos então duas forças agindo na educação, que exigem dela uma revisão profunda das suas práticas e estratégias. De um lado a necessidade de educar uma grande quantidade de jovens, que exigem um tratamento quase individual e, de outro lado, a necessidade de preparamos esses jovens para uma sociedade empreendedora e ávida por inovações. Isso só pode ser feito com a inclusão, de forma planejada e sistematizada, da tecnologia.

A tecnologia que adotamos até agora não tem dado o resultado que ela prometia. A razão é que montamos salas de aulas com equipamentos do século XXI, mas nossas práticas didáticas e postura em sala são do século XIX. Queremos usar computadores durante as aulas, mas proibimos o uso de smartphones pelos alunos. Exigimos pesquisa, mas limitamos o uso de Internet. Sabemos que precisamos formar um cidadão colaborativo mas damos provas e trabalhos individuais. Dividimos o conhecimento em silos (disciplinas) como propôs Rene Descartes nos idos de 1600, proferimos aulas como as congregações religiosas do século XV, segregamos os jovens por idade baseado nas ideias de Jean Piaget do século passado.  Precisamos repensar essas práticas e descontruir o processo educacional atual para criar algo inovador e voltado para nossa cultura.

Devemos eliminar a separação do conhecimento em disciplinas isoladas: a realidade não é separada em disciplinas. Precisamos liberar os jovens para estudarem aquilo que desejam independentemente da idade que têm – a curiosidade é a maior motivação para os estudos e ela acontece em qualquer idade e sobre qualquer assunto. Precisamos vincular o conhecimento escolar com o dia-a-dia dos jovens, para que esse conhecimento faça sentido na sua vida e seja, assim, compreendido e efetivamente incorporado às suas competências pessoais.

Para que tudo isso possa ser feito precisamos inovar nas políticas educacionais (nas três esferas de governo), tentar estratégias diferentes para o aprendizado. Precisamos mudar a gestão escolar, profissionalizar, estabelecer metas de desempenho e premiar os bons gestores. Precisamos modernizar as práticas de ensino e substituir os livros textos, que preservam a visão fragmentada da realidade. Enfim, mudar tudo!

A tecnologia é a maior aliada nessa tarefa, mas precisa ser acompanhada de uma mudança de atitude por parte dos operadores da educação. Deverá ainda enfrentar as resistências corporativistas dos sindicatos, das editoras e nas faculdades. As mudanças em discussão atualmente, proposta na Medida Provisória 746/2016, estão no caminho certo. Mas precisamos de mais. Muito mais.

Precisamos de professores que transitem entre várias disciplinas e que tenham uma visão prática dos conteúdos ensinados. Precisamos de livros textos interdisciplinares, que mesclem ciência com literatura, com história, geografia e ciências. Precisamos de gestores focados em resultados concretos e premiados por resultados. Precisamos de práticas pedagógicas mais próximas do dia-a-dia dos alunos. Precisamos de vestibulares de escolas públicas que exijam com menos conteúdo e mais profundidade. Enfim, precisamos mudar

[1] Paulo Rogério Foina é físico, doutor em computação, professor e coordenador de cursos do UniCEUB, consultor do Instituto de Pesquisas Eldorado e diretor executivo do Instituto illuminante de inovação.

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