Mobilidade urbana- desafios para o século XXI

Paulo R. Foina[1]

Viver numa cidade grande é sofrer com vários problemas decorrentes da grande concentração de pessoas. Morar numa cidade brasileira é mais difícil pela incapacidade dos gestores públicos em se anteciparem aos problemas e darem soluções mais duradouras e racionais.

Certa vez assisti a um congresso de planejamento urbano onde um especialista japonês falava sobre como resolver um problema que deveria aparecer dentro de 10 anos. Os representantes das demais cidades o questionaram se Tóquio (a cidade a que ele se referia) não tinha problemas atuais a serem resolvidos. Ele respondeu, com um certo espanto, que sim, mas eles já haviam sido previstos e equacionados há décadas e cabia a ele apenas implementar as ações preconizadas pelos seus antecessores no cargo. Que inveja…

Uma das grandes crises que passamos hoje é a da mobilidade urbana. As cidades estão abarrotadas de carros e não se consegue andar e nem estacioná-los. O deslocamento em ônibus superlotados consome mais de 3 horas por dia de grande parte dos trabalhadores de qualquer uma das capitais brasileiras. As soluções apresentadas não estão surtindo o efeito esperado servindo apenas para complicar ainda mais a situação.

Ampliar as ruas é uma solução temporária, pois mais carros irão utiliza-la e os congestionamentos voltarão em breve. Cobrar pedágio de carros em áreas centrais desloca o problema para as outras áreas da cidade e afeta apenas as classes mais pobres. Rodízio também é momentâneo pois a frota só aumenta. Investir em transporte público, mantra de todo urbanista, esbarra nos interesses econômicos da indústria de automóveis e na cultura de ostentação do brasileiro. As camadas mais altas da sociedade não usam os ônibus e metrô porque são sujos e lotados e assim colocam seus carros para aumentar os congestionamentos.

Precisamos de soluções mais criativas e governantes audaciosos que devolvam as cidades para as pessoas, e não para os carros. Vamos ver algumas dessas ideias.

Proibir o uso de carros nos centros expandidos das cidades – Essa estratégia já vem sendo usada em várias cidades, com cobrança ou não de pedágios. A proibição total é mais democrática mas mais difícil de implementar por pressões da classe alta da sociedade que prefere pagar para não abrir mão de seu conforto. A pressão social se desloca para o governo para que este ofereça transporte público de qualidade e na quantidade desejada.

Proibir a contratação de empregados que morem há mais de 2 km da empresa –  Essa é uma proposta mais inovadora e implica em privilegiar a contratação de funcionários que moram perto das empresas, reduzindo assim a pressão por transportes na rota residência-trabalho-residência. A eventual e pontual falta de mão-de-obra especializada próxima pode ser contornada com um plano de implantação que dá tempo para a acomodação dos funcionários e a formação de profissionais locais.

Exigir um percentual mínimo de home-office em todas as empresas – Eis uma solução fácil de implantar mas que depende da revisão da draconiana legislação trabalhista brasileira. Temos tecnologia abundante para manter em casa (e trabalhando) a maior parte dos empregados das áreas administrativas e de serviços. Um período inicial de aculturação e acertos de processo será necessário para adequar os trabalhadores e seus gerentes;

Segregar o tráfego de veículos do trânsito de pessoas através de túneis exclusivos a carros – Algumas cidades criaram verdadeiras cidades subterrâneas nos seus centros urbanos por onde circulam os veículos deixando a superfície para pedestres e ciclistas. O custo dessa solução é alto e causa grandes transtornos para a população durante sua implantação. O problema de congestionamentos é transferido para debaixo da rua.

Proibir o estacionamento de carros nas ruas – Alguns prefeitos estão tentando adotar essa norma. O argumento é que as ruas foram feitas para o trânsito de veículos e não para o estacionamento dos mesmos. Para isso existem locais próprios, públicos e privado (em pequena quantidade é verdade). Essa solução praticamente duplica a malha viária e dá mais fluidez à mesma sem nenhum investimento imediato do governo. O custo político é enorme. Por outro lado, faz prosperar o mercado de estacionamentos privados o que levará as pessoas a questionarem as vantagens de se possuir um carro. A médio prazo há uma redução de veículos e melhoria da mobilidade.

Transporte gratuito para todos – A bandeira do passe livre é periodicamente trazida a público pelos movimentos de estudantes e trabalhadores. Os governos combatem essa alternativa por questões de custos, mas se colocarmos no papel a economia que se terá com a desmobilização dos órgãos de controle de transporte, a redução da mão-de-obra embarcada (cobradores), a redução dos assaltos e a melhoria dos serviços prestados, o custo não é tão elevado, na verdade em algumas situações pode até ser mais barato para o governo da cidade. É necessário governante com coragem para enfrentar o lobby das concessionárias e mudar da lógica de remuneração das mesmas (sou contrário ao serviço gratuito prestado por empresas públicas) passando do reembolso por passageiro para o reembolso por viagem.

Vamos pensar e agir rapidamente senão a cidade vai parar. Hi! Já parou!!

 

 

 

 

[1] Professor e pesquisador em inovação e gestão de tecnologia. Diretor Superintendente do Instituto Illuminante.

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